Eugênio era um garoto sociável. Mas, ele não podia evitar que a inteligência dele continuasse aumentando. Fazia parte dele e, por mais que tentasse ignorá-la, ela ultrapassava suas tentativas. Um dia ele e seus amigos tiveram uma incrível ideia de criar um jogo. Eugênio era o líder. Dava ordens, auxiliando seus amigos no que fazer e como fazer. Porém, ele estava acima deles. Seus amigos não conseguiam acompanhá-lo. Tudo que pedia para eles fazerem não era concluído. Foi então que seus amigos decidiram, juntos, que tê-lo no grupo seria um erro, pois nunca conseguiriam fazer o que ele planejara. Ou seja, era mais fácil excluí-lo do que todos saírem e apenas ele ficar.
Desse modo, decidiu que o melhor seria ficar excluído dos prazeres do mundo, ficando, apenas, confinado ao seu novo mundo: virtual; onde não era julgado nem reprimido. Considerava a vida social algo frívolo e irremediado. As pessoas não mudavam suas percepções. Eram egocêntricas e perturbadas, como poderia lidar com isso? Sua resposta é simples: não lidaria. Decidiu que não se importaria com mais nada que tivesse alguma relação física ou pessoal com alguma pessoa. Exceto seus novos amigos que tinha ganhado quando se mudou para uma casa - onde moravam pessoas super talentosas e loucas de um jeito divertido. Mas, mesmo assim, não falava muito com eles no dia-a-dia. Mesmo morando com eles, sua relação era meramente resolvida virtualmente. Muito raramente saía de seu quarto. Não porque queria cumprimentar seus amigos, era só para poder alimentar-se mesmo.
Eugênio gostava deles, na verdade, os amava, mesmo que nunca demonstrasse. Seus amigos fizeram um bem danado à ele, só que ainda não percebia isso. Achava ele que era inferior aos outros, mas mal sabia que era considerado muito mais superior que inferior. Eugênio tinha um coração impressionante. Muitos pensariam que ele era uma pessoa definitivamente egocêntrico por quase não demonstrar afeto. No entanto, esse era seu jeito de lidar com as coisas. Bem lá no fundo, podia sentir algo. Algo que não queria que fosse revelado para seu próprio bem, pois achava que isso serio o fim da sua vida. Ele não podia arriscar.
No verão, que para ele era a pior estação, uma garota - amiga de infância de uma moradora da casa compartilhada - veio visitar sua amiga. Também tinha um talento nato como a amiga de infância. Ela era muito bonita. Mas, para Eugênio, não. Ele fugia de garotas. Sempre achou que elas eram um caso perdido. Mas... mesmo lutando contra as investidas dessa linda garota que sempre o procurava, ele não podia negar que estava gostando daquilo. Sim, ele sentia-se frustado com sua evasiva aproximação, mas parecia que sua alma acendia quando ela estava por perto. Eugênio não sabia o que era amor. Na verdade, não fazia a mínima ideia de como era isso. Portanto, apenas ignorou esse sentimento, pelo menos tentou ignorá-lo. Parecia que quanto mais ele tentasse ignorar, esse sentimento vinha com mais intensidade ainda. Era tão inevitável!
Trancou-se em seu quarto novamente. Tinha que fazer essa coisa dentro dele parar de ressurgir quando a via. Mas, ela insistia tanto em falar com ele... ela queria entendê-lo. Eugênio nunca deixou uma brecha aberta para que isso acontecesse. Se não fosse por sua criação - um avatar de computador que respondia todas as mensagens enviadas sem que ele precisasse falar algo - que decidiu dividir a história passada dele e o que o deixou do jeito que estava. Ela conseguiu entendê-lo e isso fez com que o amasse ainda mais! Entretanto, chegou seu dia de partir e retornar ao seu país. Juntamente com seus amigos a acompanhou até o aeroporto. Precisava que transparecesse que não se importava, seria muito melhor assim. Ela despediu-se de todos, um por um, até que por fim, foi a vez dele. Ele não sabia muito bem como agir, era tímido demais para tomar qualquer atitude, aliás, ele queria odiá-la por fazê-lo sentir alguma coisa dentro de si.
-Você não vai me dar um beijo, Eugênio? - indagou olhando-o fixamente para desestruturá-lo ainda mais. Eugênio corou na mesma hora. Ele não a beijaria. E tinha uma plateia inteira para vê-los... não que fosse só por isso. Ele realmente não queria.
-E por que daria, ex-sanguessuga? - a primeira vez que ela apareceu, tomou a iniciativa de chamá-la de sanguessuga, mas percebeu que ela não era assim.
-Ah, vai! É um simples beijo, já estou partindo mesmo... - fez um biquinho e abaixou a cabeça para mostrar que estava triste. Por que ela tinha que fazer aquilo? Argh!
-Não farei isso.
-Tudo bem. Me dá um abraço pelo menos.
-Tudo bem, ex-sanguessuga.
Eugênio deu um passo à frente e ela também, fazendo com que ficasse apenas um palmo distante um do outro. Ele ergueu os braços e fechou os olhos porque isso realmente era algo difícil. Nunca fizera tal coisa com ninguém. A ex-sanguessuga se inclina plenamente decidida no que acabaria de fazer. Fingiu que daria um abraço e beijou-o. Roubou um beijo de Eugênio, que ficara completamente vermelho perante tanta ousadia dela. Afastou-se imediatamente de seus lábios e deu - um, dois, três passos para trás. Que garota louca! Vê se pode uma coisa dessa!
-Você é louca? O que pensa que está fazendo? - estava irritadíssimo.
-Você fica uma gracinha quando está envergonhado e irritado ao mesmo tempo. Bem, tenho que ir. Tchauzinho, Eugênio! - diz, e vai embora.
Depois desse beijo inesperado, Eugênio não sabia o que fazer. Todos os sentimentos que não compreendia explodiram dentro de si quando beijaram-se. O que estava havendo com ele? Ninguém sabia. Isso o deixou tão constrangido que quando chegara em casa, trancou-se novamente. Queria pensar nos programas que pretendia fazer, mas era impossível quando se tinha uma garota na cabeça. Era exatamente isso que temia. Temia que um dia isso pudesse acontecer consigo. Sem perceber, abriu uma brecha para que ela pudesse encontrá-lo no seu mundo antissocial e intransigente, no qual ninguém, jamais, entrou.
Eugênio percebeu que isso poderia ser amor, mas não revelaria isso à ninguém, aliás, sua reputação estava em jogo. Não queria mudá-la de forma alguma. Mas, o amor foi tão forte que o fez mudar bruscamente. Quando finalmente abriu os olhos para perceber o que acontecera, já era tarde demais. O amor envolveu-o e mostrou à ele a vida que tanto ignorava. Mostrou que há pessoas pelas quais valia a pena lutar e se esforçar para estar perto. Mostrou que cada pessoa lidava de um jeito diferente sua própria vida e isso fazia deles um ser humano normal. Descobriu que ninguém está acima nem abaixo de alguém. Todos eram iguais e deveriam ver isso como algo bom e não ruim. Eugênio, que antes limitava-se a viver normalmente, agora sente uma vontade absurda de mostrar à sociedade do que é capaz de fazer. Sem medo, sem rancor, apenas aberto a novos ares e novas conquistas sem se excluir por medo da opinião alheia.
THE END.